Desde 2009, quando lançou sua primeira fragrância em parceria com a Puig, Shakira vem construindo, de forma consistente, uma identidade dentro da perfumaria de celebridades. Ao longo de 16 anos e 12 perfumes, o que se observa não é apenas a expansão de um portfólio, mas a repetição estratégica de um mesmo conjunto de notas e sensações.
Ao analisar as fragrâncias em conjunto, é possível identificar um padrão claro. A maioria das composições se apoia na família oriental floral, combinando acordes de baunilha, jasmim, flor de laranjeira, almíscar e especiarias leves. Essa estrutura se mantém ao longo dos lançamentos, com pequenas variações que alteram a intensidade ou o protagonismo de determinados elementos, mas sem romper com a base original.
Na prática, essa repetição funciona como um mecanismo de reconhecimento. Assim como acontece em outras áreas da linguagem, a recorrência de certos “elementos” cria familiaridade e facilita a identificação imediata. No caso das fragrâncias de Shakira, essa lógica dá origem a uma espécie de gramática olfativa, na qual cada nota reforça uma ideia já estabelecida.
Essa ideia está diretamente ligada à construção de uma feminilidade específica. A combinação de flores brancas com acordes quentes e adocicados produz perfumes envolventes, de presença marcante, frequentemente associados a uma sensualidade mais direta e acessível. Trata-se de um perfil que dialoga com um imaginário amplamente difundido no mercado global, especialmente quando se fala em “feminilidade latina”.
Os perfumes, nesse contexto, não funcionam apenas como produtos, mas como extensões dessa narrativa. Ao manter uma coerência olfativa ao longo do tempo, a marca reforça uma imagem que já faz parte da trajetória pública da artista, criando continuidade entre música, estética e fragrância.
Do ponto de vista de mercado, a estratégia também se mostra eficiente. A constância na estrutura das fragrâncias aumenta as chances de aceitação entre consumidores que já tiveram experiências positivas com lançamentos anteriores, ao mesmo tempo em que permite a introdução de novidades sem risco de descaracterização.
É nesse equilíbrio entre repetição e variação que se consolida aquilo que, de forma simbólica, pode ser chamado de “cheiro de loba”. Não se trata de uma fragrância específica, mas de um conjunto de códigos olfativos que, ao longo do tempo, passaram a ser reconhecidos como parte de uma mesma identidade.





Deixe um comentário